11 de outubro de 2012

Efeitos colaterais da saudade



Sinto fome, sinto frio. Não sinto vontade de comer nem de esticar minha mão até a cabeceira da cama onde deixei uma blusa de manga comprida pendurada a dias, ou horas, não tenho certeza. O tempo também não é mais o mesmo. A paisagem na janela não me causa nenhuma impressão e o chá em cima da mesa já esfriou sem que nenhum gole chegasse a minha boca.
Tenho a vaga lembrança de que a algo importante que eu deveria lembrar hoje, mas o calendário na parede,que a muito deixou de ser marcado, não me oferece pistas e minha agenda está fora do alcance do meu ânimo.
Me sinto sufocada dentro desse quarto que ainda está repleto da sua presença e não admito nem para mim mesma que não saio daqui, porque preciso me sentir perto de você. Eu não enxergo as fotos que guardei dentro daquela caixa, mas já memorizei suas feições em cada uma delas e saber que elas estão ali, tão perto, me tranquiliza. Elas elevam meu coração a um tempo bom, um tempo cheio de esperanças. Mesmo que eu não tenha deixado você usá-lo por muito tempo, eu ainda lembro do brilho daquele brinquinho de strass pendurado na sua orelha. Agora ele está opaco e inutilizado dentro da minha caixinha de jóias.
E tem aquela joia  que eu nunca guardei lá dentro, que eu nunca tirei de mim. A aliança que traz seu nome gravado na prata tão intenso e inapagável quanto parece estar no meu peito. O anel que figuradamente nos conferia um compromisso, que me fazia acreditar  que o tínhamos era algo maior. Queria acreditar que o coração é como uma aliança de prata. Eu derreto-a, apago todos os vestígios do seu nome e transformo-a em outra coisa que de forma nenhuma me fará lembrar do que havia ali antes. Até tatuagens são removíveis e meu amor por você não parece ser.
São pequenos momentos que fazem uma falta danada. Aquele dia em você dormiu no meu colo antes mesmo do filme chegar ao meio e eu mesma não vi nada porque me distrai vendo você dormir. Aquela flor que eu ainda tenho guardada que chegou as minhas mãos fresca depois se ter sido arrancada do jardim da vizinha. O dia em que você me carregou porque eu não conseguia me equilibrar nos saltos. O chocolate que você deu para mim, mas comeu inteirinho mas eu guardei de lembrança o papel. E o relógio não interrompe a sua marcha enquanto eu fico infinitamente recompondo cada instante que passei ao seu lado.
Eu não acreditava em eternidade, nem pensava num futuro muito distante. Mas achava que o que a gente tinha valia alguma coisa. Se um dia acabasse, pensei que seria porque cada um tinha que seguir o seu próprio caminho. Não que você seguiria o seu e me deixaria perdida na estrada da nossa história. Me resta acreditar firmemente que tudo que aconteceu foi tão verdadeiro para você, quanto foi a mim. E me contentar com a nostalgia até que meu coração esteja pronto para o próximo passo da vida.
Um flash de memória me recorda o que eu inconscientemente tentava esquecer, hoje é dia vinte e cinco de março... Você me prometeu que nesse dia nós... Quer saber, não importa mais. Tudo isso é passado e agora só me resta sentir os efeitos colaterais da saudade e esperar que o tempo cicatrize as feridas. Está doendo e pode ser que ainda doa muito mais, mas vai passar. Afinal o que não nos mata, nos torna mais fortes e essa dor de amor está longe de causar algum efeito letal em meu corpo.
Danielle Oliveira

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