- Você... você voltou! - Ela arfou com dificuldade olhando incrédula para a figura pálida e chamuscada que se aproximava devagar.
Ele sorriu com dificuldade segurando desajeitadamente uma flor maltratada pelo calor enquanto arrastava a perna machucada.
- Eu nunca fui meu amor. Eu jamais te deixaria. - Finalmente ele alcançou a menina trêmula e pousou a pequena flor amarela em sua mão frouxa.
- Mas você disse, você disse que não podíamos ficar juntos. - Ela olhava alternadamente para a flor e para ele sem acreditar realmente.
- Eu precisava. Pra te proteger.
- Você tem que ir embora! Eles virão atrás de mim, você tem que fugir! - Ela se desesperou ao se lembrar da explosão e dos caçadores que logo estariam ali.
- Eu te amo. Eu não consigo viver sem você.
- Você não vai viver de jeito nenhum se continuar aqui! Por favor, vá!
- Se acalme, ninguém virá. Eu cuidei de tudo. - Ele a pegou o mais delicadamente possível e deitou-a no seu colo. Ela não ofereceu resistência já que mal conseguia se mexer.
- Eu achei que tinha te perdido para sempre. Pensei que nunca mais te veria. Achei que... que não me amava mais. - Lágrimas quentes escorriam pelo rosto da garota.
- Nunca minha princesa!
- Obrigada... Obrigada por voltar... Eu te amo um mundo inteiro. - Ela fechou os olhos apreciando o momento.
- Eu também te amo! - Ele beijou-lhe levemente testa, ela queimava de febre. - Naquele dia em que você foi marcada, eu sabia que eles viriam te buscar logo. Eu não podia deixar eles te levarem, mas sabia que você não me deixaria fazer nada. Por isso eu te disse aquelas coisas, por isso te tratei tão friamente. Ah meu amor, como doeu te magoar tanto! Porque no fundo, no fundo, eu queria ficar e não sair do seu lado nunca. Mas valeu a pena. Eu descobri tudo o que precisava sobre a rota daqueles abutres e BUM! Mandei todos eles pelos ares antes que te trancafiassem naquele calabouço. - Ele sorriu emocionado. - E agora estamos livres pequena, livres para sempre. Temos todo tempo do mundo! Vamos nos casar e ter filhos e envelhecer juntos. - Ele beijou-lhe ardentemente a boca por alguns segundos antes de perceber que havia algo errado. Aquela boca não correspondia o beijo, aquele corpo não irradiava mais o calor da febre, não irradiava calor nenhum.
Ele sacudiu-a e balançou-a e chamou o seu nome pelo que lhe pareceram horas a fio até que aceitou o inaceitável: - Ela se foi. - O grande amor da sua vida, a mulher que ele arriscara para salvar, se foi. Depois de tudo que fizera para mantê-la viva. A vida resolveu pregar-lhe uma peça e levou-a assim mesmo. Um jorro de lembranças assaltou-lhe a mente...
"- O sorriso encantador, o vestido rosa e o primeiro beijo.
- A primeira noite e a timidez dela que deixava tudo mais engraçado.
- As cartas, os bilhetes, os cartões.
- A paixão, o carinho, a amizade, o companheirismo, a proteção, a afeição e o amor... Primeiro, verdadeiro e único amor. "
Então ele olhou para o rosto em paz repousando em seu colo e aceitou o inaceitável.
- Ela se foi. Ela se foi e não vai mais voltar.
PS: História retirada do livro "O Guardião do Muro" e editada livremente por mim.