2 de agosto de 2012

Um cigarro e um baseado (Parte 3)




(18/07/2012, 19h15m)
Por Olivia Linder,

Eu estive longe por um tempo grande. Não tinha mais vontade de escrever, nem de comer, nem de sair da cama. Não tinha vontade nem de abrir os olhos. Vocês devem estar se perguntando o que me trouxe de volta a essa vibe.
Primeiro eu vou te contar o que me jogou nessa escuridão não habitual. Eu já tinha começado a narrar algumas das minhas aventuras mas tive que voltar aqui. Um filho da puta. Foi quem me jogou nesse buraco.
Eu não tenho mais o costume de me interessar por muitas pessoas, elas simplesmente estão lá e eu também, então as vezes rola algo. Simples assim. Eu tenho minha gangue e tudo (não se confundam com o sentido da palavra, essa é só a denominação para o grupo de caras que andam comigo.) mas não me importava com o que rolava fora dela. Bem, eu tenho estado a margem da sobriedade a tanto tempo que quase me esqueci que existia um mundo do outro lado.
Meu lugar preferido era uma praça que chamávamos de Abismo. Porque o nome? Era impossível entrar naquele lugar sem ficar instantaneamente tomado pela neblina que o rodeava. Para quem não estava acostumado a ficar chapado era mesmo como cair de um penhasco onde não se enxerga nada além de nuvens brancas como algodão-doce. Você podia conseguir qualquer tipo de droga lá. Qualquer mesmo. Eu passei dias e noites inteiros da minha vida lá e até hoje ouso dizer que não conheço tudo que rolava por lá. E outra coisa mística (HAHAHAHA!) sobre o lugar é que os herois - policiais - nunca, mas nunca mesmo pisam por lá. É um mistério que ninguém está interessado que seja solucionado. Eu gosto de acreditar que é algum tipo de presente de um deus da terra.
Foi lá que eu o vi pela primeira vez. Ninguém chama a atenção no Abismo, porque lá tudo é aceito, tudo é normal. Cada um tem a liberdade de ser quem quiser. Mas esse cara não era assim, de certa forma ele estava simplesmente deslocado da paisagem. Estava com uma bermuda branca e boné virado para trás. Sozinho. Agora o que fez meus olhos se pregarem nele por um longo tempo: ele estava sóbrio. Totalmente. Essa é uma habilidade que qualquer Lol (é como a gente se chama porque ficamos rindo o tempo todo quando estamos altos) adquire com o tempo, perceber quem está surfando na onda, quem já se afogou nela e aqueles que estão só na praia obversando. Aquele cara estava na areia. Nem alcool, nem erva, nem farinha. A não ser por estar respirando aquele ar repleto de maconha, haxixe e todas as outras merdas que viram fumaça ele estava limpo.
Era sexta a noite, beirando a madrugada e eu já estava bem alta, como sempre. Mas eu sempre viajo com consciência. Sempre ingiro doses exatas para me deixar como eu quiser estar. As vezes semi-morta e outras só meio balançada. Naquela noite eu só tinha tomado um calmante e bebido umas doses. Estava tranquila curtindo a onda. 
" - Tá perdido? - Sentei com pernas de índio na frente do banco em que o cara estava e observei as feições dele.
- Se eu disser que sim, você ajuda a me achar? - Me deu um sorriso meio frouxo, meio sem graça. 
- Hum, não é difícil conseguir um baseado por aqui. - Apontei a praça com o queixo
- Esse não é o meu tipo de perdição.
- Então eu não posso te ajudar, é melhor ir se achar em outro lugar.
- Não é nessas coisas que eu quero me encontrar, eu quero me encontrar em você."
O que qualquer garota poderia fazer diante disso? Eu me liguei nele instantaneamente.Esse foi o primeiro de muitos encontros. Dediquei todos os meus minutos livres a partir daquele dia a ele. E o diferencial dele para os outros? Ele me manteve limpa. Por todos os segundos em que estivemos juntos, eu nunca mais toquei em nenhuma substância. Nem mesmo os comprimidos. Eu sempre soube que não era viciada e que só estava naquela vida porque gostava, mas eu nunca tive motivação ou uma vida melhor para onde ir para que eu pudesse deixar as drogas. Não senti falta de nada nem ninguém. Eu abandonei tudo de um minuto para o outro e me doei aquele amor. Foram os 79 dias mais puros da minha vida.
Vocês devem estar pensando o que deu errado nessa maravilha toda. Bem, quando você usa uma substância por muito tempo e para subitamente, seu corpo 'sente' essa substância em muitas coisas. É um tipo de alívio pra abstinência. Por isso eu demorei um tempo até associar aquele gosto na boca dele a maconha. Pois é, o meu salvador era só mais um chapado como eu. Me diga você, qual o sentido de ter me livrado de tudo aquilo para ficar com alguém que ainda estava lá? Ele era só uma ilusão, tudo que eu fiz foi em vão. Porque não valeu de nada para ele. Então nós brigamos feio, mas eu não comentei nada acerca da erva. Depois que ele se foi - pra sempre - eu rasguei a única foto nossa, tiramos em uma festa junina eu estava de maria-chiquinha e pintinhas no rosto, nosso último elo e depois disso... nada.
Não se compadeçam, foi bem mais fácil que vocês pensam sair dessa. Me entupi de comprimidos e enchi a cara até desmaiar. Não viagem comigo e pensem que foi uma tentativa de suicídio por um idiota. Todo mundo me chama de Bruxinha porque eu sempre tive o dom da mistura, o dom de fazer as poções mais loucas e nunca errar a dose. Já estava muito bem quando acordei e subi no telhado para fumar um meio baseado que achei no bolso de um jeans surrado. A vista de lá é irada. Isso me deixou bem de novo.

B.