22 de março de 2013

Um cigarro e um baseado (Parte 4)

Por Olivia Linder,

Pra mim se tornou fácil observar o mundo e não me surpreender com toda falsidade e maldade que ele carrega. Quando se começa a andar pelas sombras, você não se assusta muito com as coisas que acontecem no escuro.
Mas tem coisas, como a morte, que me tocam profundamente. Porque eu sei como é, estar morta eu quero dizer. E me machucou, me machucou de verdade ver ele morrer. Morrer pelos mesmos motivos que eu. Com uma diferença, eu voltei e ele não.

" Eu vi a vida saindo dele e escorrendo nas minhas mãos,
  eu vi a essência vermelha dele manchando o chão.
  Eu vi os heróis passando por cima do corpo dele sem abaixar os olhos,
  sem ver os meus olhos que sangravam lágrimas transparentes e salgadas.
  Eu vi nos olhos deles a ganância ao achar o pacote enrolado em seda amarela,
  eu vi aquela seda amarela se transformar em dourado ouro nas mãos dos heróis.
  Eu vi o pacote se transformar em ouro branco no desejo deles,
  eu vi o preço de uma vida em pó.
  Mas eu não vi, eu não vi quando aquela alma deixou o corpo,
  e eu não vi remorso no olhar de nenhum herói, porque não havia remorso pra se ver ali. "

Certos caminhos já tem fim pre-determinado. E mesmo assim, escolhemos caminhar por eles. Eu não sei se o delator anônimo sentiu culpa ou qualquer outra coisa com a morte dele. Não sei se ele esperava que ele reagisse e as coisas dessem tão erradas. Também não estou afim de jogar o jogo do 'se' e pensar em como poderia ter sido...
Não era pra mim, eu nem estava afim. Mas nós queríamos algo diferente, queríamos mais. E ele nos conseguiu mais e nem pensamos em mais nada, só esperamos que ele fosse buscar e nos trouxesse a Cocaína... branca e cristalina... tão pálida como o corpo dele no caixão.
Eu não fui ao Abismo por dias seguidos. Durante esses dias, não importava o quanto eu lavasse as minhas mãos, ainda sentia o sangue dele impregnado nelas. Eu tive problemas maiores que esse, com os heróis,   com os meus pais. Mas, como eu disse, quando se começa a andar pelas sombras, as coisas que acontecem no escuro deixam de assustar. Ah, também fiquei dias seguidos sóbria, só vivenciando meus sentimentos. Bem, acho que um baseado sempre me ajuda a refletir melhor. Tenho certeza que tem um guardado em algum tijolo do muro.

B.